ABRAGNOSE - Academia Brasileira de Gnose

Atenção Plena & Auto-Observação III

Disse o Senhor Buddha: “A atenção plena na morte, quando desenvolvida e cultivada, traz grandes frutos e benefícios”.Desenvolver atenção plena na morte não é simplesmente pensar: “oxalá eu possa viver o tempo necessário para seguir as instruções do Abençoado” – e assim passar a acreditar que já fez muito [ou está fazendo o suficiente]. Se fizer isso, e apenas isso,não está desenvolvendo nada… É preciso treinar muito esse “iremos nos portarcom atenção; esse iremos desenvolver a atenção plena na morte de modopenetrante com o propósito de dar um fim às impurezas”.

Não estamos aqui fazendo uma leitura literal do sutta do Senhor Buddha; agarramos as idéias e estamos colocando-as no contexto da modernidade. Portanto, não basta apenas alguém pensar: “oxalá possa eu ter tantos anos de vida para que tenha tempo necessário para seguir as instruções do Mestre Samael” – e com isso pensar que já está fazendo algo em favor da auto-realização. Pensar desse modo é uma ilusão nossa porque não estará fazendo nada…

É preciso ir além disso; é preciso treinar esse “nós iremos nos portar ou agir com atenção”, esse “nós iremos desenvolver essa atenção plena na morte de modo penetrante com o propósito de dar fim as impurezas”.

O Senhor Buddha, esclarecendo suas próprias palavras, diz: “Bhikkhus (monges, estudantes), a atenção plena na morte, quando desenvolvida e cultivada, traz grandes frutos e grandes benefícios; ela mergulha no imortal; ela possui o imortal como seu objetivo final – e como a atenção plena na morte é desenvolvida e cultivada para que traga grandes frutos e benefícios, mergulhai no imortal e tenhais o imortal como seu objetivo final”.

Pode acontecer que quando chegar a noite qualquer um de nós reflete, medita, faz reflexões consigo mesmo, analisando muitas ou várias das possíveis causas que podem levar à morte enquanto está entregue às horas de sono.

Quando Buddha vivia, uma cobra poderia entrar dentro da casa e picar aquele que estava dormindo e conseqüentemente morrer. Um escorpião poderia atacar e igualmente provocar a morte; um inseto venenoso – como uma centopéia – também poderia ocasionar danos, e a morte poderia ocorrer naquela noite. Se a morte viesse naquela noite, é claro que ela seria um impedimento para o bikkhu mergulhar no imortal ou, como dizemos aqui, para despertar a consciência e se auto-realizar.

É evidente que a morte é um impedimento concreto para alcançarmos o fim almejado – que é despertar nossa consciência ou, como estamos falando desde janeiro de 2007, “resgatar nossa própria alma”.

Mas, entre outras causas, alguém poderia tropeçar no escuro e bater a cabeça ou cair da escada; poderia ingerir alimento estragado ou água contaminada; enfim, dezenas ou centenas são as causas da morte, e qualquer um de nós, que está ouvindo aqui agora estas palavras, também poderá ou poderia – e seria perfeitamente natural que em uma hora, duas horas ou a qualquer momento fôssemos acometidos pelo raio da morte. Afinal, o que nós sabemos de futuro? do que nos espera esta noite? Ou do que nos espera o dia de amanhã?

Nossa morte também pode ocorrer durante o dia, quando esses mesmos fatores, podem nos levar à morte; na vida moderna, temos o trânsito, os acidentes, o caos aéreo; tudo pode nos levar à morte.

O que nos garante que vamos viver eternamente? Podemos atravessar a rua e sermos atropelados; podemos estar caminhando tranquilamente num parque e de repente um raio cai sobre nossa cabeça; podemos estar distraídos caminhando em algum lugar e pisar num cabo, num fio de alta voltagem, e com isso perder a vida. Enfim,são tantas as possibilidades de desencarnar que deveríamos efetivamente tomar com mais seriedade este exercício da atenção plena na morte.

É claro que, ao fazermos este estudo da meditação ou da reflexão sobre a morte, ao nos darmos conta de quão frágeis somos, vamos também perceber claramente aquilo que nos falta, que o Buddhismo denomina de qualidades mentais inábeis e prejudiciais, que até o momento não fomos capazes de abandonar.

Como diz o buddhismo, é claro que essas qualidades mentais inábeis e prejudiciais nos atrapalham no momento de nosso desencarne. Por isso é urgente, premente, a necessidade que temos não só de refletir sobre a morte, sobre os processos de nosso desencarne, mas principalmente refletirmos sobre aquilo que nos falta para fazermos uma transição consciente entre o atual estado de vida e o outro estado de vida que sucede ao nosso desencarne.

Não somos um corpo; somos uma consciência que vive dentro de um corpo; somos uma consciência que possui um corpo celular, biológico, para interagir neste mundo. A perda deste corpo nada mais significa para alma ou para consciência que abrir mão de uma ferramenta de interação com este ambiente daqui, onde estamos neste momento. Mas, a vida segue…

A consciência é imortal, porém ainda assim essas qualidades mentais inábeis e prejudiciais nos ocasionarão, como de fato ocasionam, muitos dissabores na vida que segue o momento de nosso desencarne, e é por isso então que se torna realmente importante desenvolver consciência plena, atenção plena sobre a morte.

Sempre partimos do princípio que somos eternos, achando que nosso corpo é eterno, porque nossa consciência, no momento, tem como âncora o corpo físico e seus cinco sentidos mais a mente, o intelecto e a personalidade que desenvolvemos desde o dia que nascemos.

Esse conjunto de cinco sentidos mais a mente e a personalidade nos dá essa ilusão, nos passa a sensação de eternidade, e aqui no Brasil especialmente, fugimos das discussões de temas que abordam a morte, o desencarne, o abandono do corpo físico.

Temos acompanhado pela televisão o sofrimento e a dor das pessoas envolvidas no última tragédia aérea, e poderíamos ser nós mesmos a estar neste mesmo quadro que assistimos hoje com outras pessoas, e é de nos perguntarmos: teríamos a serenidade, a calma, a tranqüilidade, a maturidade espiritual para viver, atravessar momentos difíceis como estes que estamos vivendo nestes dias, por ocasião de mais um acidente aéreo que ceifou mais de duzentas vidas?

Que este acontecimento sirva de ponto de partida para uma reflexão individual: quão frágeis somos? Ainda que nos creiamos invulneráveis, eternos até, há uma ilusão nisso, e acima de tudo, pela cultura que praticamos, temos aqui, neste país a verdade verdadeira que não estamos preparados para enfrentar a morte.

Uma morte em família gera grandes turbulências, desestrutura a maioria das vezes toda uma família, toda uma vida. Por isso mesmo então temos que nos preparar para este momento, para esta única certeza que é exatamente o desencarne.

E é analisando, meditando e refletindo sobre os processos da morte que iremos nos deparar com atitudes, pensamentos, conceitos, idéias, comportamentos que traduzem as qualidades inábeis como diz o Buddhismo ou como foi traduzido este sutta ao nosso idioma. Tudo isso, na verdade, são motivos, razões mais que suficientes para analisarmos a nós mesmos frente à morte…

Prosseguindo, se nós, tendo já superado – ou tendo plenamente identificado todas essas qualidades inábeis e prejudiciaisque até o momento não foram abandonadas ainda por nós e que são um impedimento grave para o caso de desencarnarmos, seja durante esta noite, seja amanhã durante o dia – então, por esse mesmo motivo, deveríamos permanecer em estado de felicidade, treinando dia e noite o desenvolvimento e a obtenção das qualidades necessárias para viver esse momento de transição.

Devemos nos perguntar sempre: existem qualidades mentais ou conceitos, idéias, valores que não foram abandonados ainda por mim e que são um grave impedimento para o caso de eu morrer esta noite? 

Isto é muito sério. Em outras palavras podemos nos perguntar da seguinte maneira: estou eu pronto neste exato momento para desencarnar agora mesmo? 

Se a resposta for não, deveríamos nos entregar à compreensão, análise, estudo, esforçarmos-nos, empenharmos-nos com todo o entusiasmo e aplicando toda atenção plena, toda consciência plena, nesta preparação, justamente dissolvendo as amarras ou as idéias que nos impedem de viver de momento a momento em estado de real felicidade, sem temer nada.

Uma coisa é fazer de conta que a morte não existe, e assim vamos levando a vida; outra coisa é você ter consciência plena da morte como fato natural e encarar isso de frente e estar preparado para atravessar essa situação, a transição entre a forma de vida biológica deste momento atual e a chamada forma de vida espiritual já despojado do corpo físico.

O exemplo que o Buddhismo apresenta para caracterizar essa urgência interior, esta necessidade premente de fazer as coisas ou dedicarmos-nos a renunciar, cortar, dissolver, abandonar essas qualidades inábeis e prejudiciais é explicado da seguinte forma: Tal como se o turbante ou o cabelo de uma pessoa estivesse em chamas ela empregaria, se empenharia, faria o esforço, aplicaria toda a sua atenção com o objetivo e a finalidade de apagar o fogo do seu turbante ou cabelo.

Da mesma forma deveria fazer o estudante, o bhikkhu, o monge: utilizar, valer-se de todo empenho, diligência, esforço, dedicação e atenção neste trabalho de atenção plena na morte. Não sei se o exemplo fica claro, mas assim é.

Então, meus caros amigos, acreditamos que para estarmos preparados para esta transição final, a morte em si, durante toda a nossa vida devemos exercitar a plena atenção da forma como aqui acabamos de mencionar: com o mesmo zelo, empenho, velocidade, aplicação como se nosso cabelo estivesse pegando fogo. Aqui não usamos turbante; usamos boné, chapéu, e aqui no sul onde é frio, usamos touca no inverno.

Portanto, se por acaso pegasse fogo em nosso chapéu, touca, boné, sairíamos correndo para nos livrarmos dele. Assim devemos nos concentrar nessa tarefa da atenção plena.

Vamos agora recapitular alguns aspectos que consideramos importantes:

O primeiro deles é a atenção plena nas sensações:contemplar as sensações é descrita num comentário feito ao Satipatthana Sutta como sendo o mais fácil dos elementos de compreensão porque todas as sensações podem ser agrupadas em três grupos, em três seguimentos. As sensações nos são agradáveis, desagradáveis ou dolorosas e neutras. Quando surge em nós ou em nosso corpo pelos nossos cinco sentidos uma sensação que dizemos ser “agradável”, ela se espalha por todo corpo e isso nos leva a expressar de forma simples e natural “Ah! que bom, isso é bom, que alegria, isso me agrada!”. Por isso sensações agradáveis.

Por outro lado no segundo grupo temos as sensações desagradáveis ou dolorosas; quando essas sensações são captadas por nossos sentidos, pelo sistema nervoso que transmite ao cérebro, a conclusão que manifestamos é “que dor, que tristeza, que desgraça, que azar!”. Não é isso?

E, por fim, temos o terceiro grupo que são as sensações que não são nem agradáveis, nem desagradáveis, nem dolorosas, nem prazerosas; elas se tornam claras àquele que está plenamente atento a si mesmo, àquele que se observa permanentemente; podemos identificar essas sensações de maneira bastante simples e rápida.

Em decorrência disso, quando estamos em meditação, somos apossados ou tomados igualmente por sentimentos agradáveis ou desagradáveis. O que fazemos? qual é nossa tendência mecânica, automática?

A tendência nossa é aceitar o que é bom, prazeroso e rejeitar aquilo que nós é doloroso; ao fazer isso, em realidade perdemos a oportunidade de nos tornarmos conscientes do que são essas sensações, do seu aparecimento e desaparecimento. Porque em meditação, na prática da atenção plena ou da auto-observação, nós, como ensinava o Mestre Samael, não temos nem que rejeitar, nem aceitar, nem criticar, nem condenar – apenas observar.

O Buddhismo diz a mesma coisa só que com outras palavras: nem rejeitar, nem desprezar, mas tornar-se conscientes do que são, tornar-se conscientes de que isso veio, está presente e de repente desaparece. Com isso, então, meus caros amigos, podemos perceber que existe a interdependência entre a mente e o corpo, e que essa interdependência produz conseqüências bem mais amplas do que a possibilidade de afugentar uma dor por ter consciência dela.

Interessante, percebam! Eu posso sentir dor, posso tomar consciência da dor, mas não tenho como afugentar a dor, verdade! Mesma coisa ocorre com o prazer. Então significa que temos que mergulhar mais fundo nisso, como falamos logo no início desta apresentação de hoje.

Portanto, num nível mais elevado, percebemos que somente uma pessoa de grande disciplina ou caráter, será capaz de focalizar a atenção e exercitar a mente a um grau suficiente, capaz de conquistar a verdadeira sabedoria, e quando o praticante, qualquer um de nós alcança, consegue a verdadeira visão interior, se torna uma pessoa diferente; não há como seguir igual.

Essa é a tarefa, meus amigos: atenção plena sobre as sensações; nem aceitar, nem rejeitar, nem alimentar, nem cortar. Tornemos-nos conscientes; com o tempo virá a compreensão disso, compreensão de que não é nem bom nem mau, apenas é – e alcançaremos, então, a verdade sobre as sensações ou a verdade que está além.

O segundo aspecto que queremos reprisar aqui é a atenção plena na mente ou aos estados mentais. Esse também é um dos temas ou aspectos que é abordado no Satipatthana Sutta.

O que acontece aqui, relacionado à mente? Quando o monge ou um estudante simplesmente compreende ou se dá conta ou desenvolve a consciência de que ele deseja algo com ânsia ou que se dá conta de que tem ânsia de possuir algo ou não tem ânsia nenhuma de possuir nada, então se dá conta de que não tem ânsia nenhuma em ter determinada coisa.

Em todo esse processo de estar atento à mente, o estudante se dá conta que pode ter simpatia ou aversão, não com a dualidade moral ou moralística que temos aqui, mas simplesmente desenvolvendo a consciência de aversão ou não aversão; é um dar-se conta do fenômeno imaterial em si mesmo, sem condenar, sem julgar, sem criticar.

Assim, então, devemos levar esse estado de plena atenção – que se caracteriza por nem aceitar, nem rejeitar, nem condenar, nem julgar, simplesmente ver, observar, seja algo fora de nós ou dentro de nós como é o caso aqui de um pensamento que estamos mencionando, e assim, então, gradativamente, vamos ficando independentes dessas mecanicidades do próprio pensamento, da própria mente.

Não existe razão ou motivo para alguém sentir-se culpado ao sentir ou perceber determinadas sensações ou pensamentos; porque assim é a vida. E se não fosse assim, não existiria; porque isso é parte da natureza.

Por isso mesmo, quando encontramos dentro da Gnose pessoas como que querendo eliminar de forma violenta os seus defeitos, já antevemos o fracasso disso; sabemos que não é dessa maneira que se trabalha. Isso é contra a natureza; a violência não pode ser empregada nisso. Quando o Mestre Samael ensina, por exemplo, a técnica de se dirigir à própria mente com ordens imperativas “mente não admito essa representação”, é claro que o estudante, a estas alturas, já deve possuir a percepção clara do funcionamento da sua mente. Se não há consciência plena ou atenção plena sobre os processos mentais seus particulares é inútil dirigir-se à própria mente; ela não obedecerá.

Portanto, dominar a mente não é um ato violento; é um ato volitivo, de vontade; é algo que se desenvolve gradativamente, à medida que aplicamos atenção plena ou auto-observação. Por conseguinte, não há como eliminar um defeito ou compreender algo pela violência ou pela força. Isso é um dos erros mais básicos e primários que vemos ser cometido dentro das fileiras gnósticas.

Muitas pessoas, ao se depararem com essas forças da natureza, se reprimem; nem criticam, nem condenam, mas se reprimem; o resultado disso, a médio prazo, é um problema psicológico – e mais grave ainda: torna-se um impedimento psicológico mais grave ainda do que aqueles que mencionamos logo no início desta apresentação de hoje.

Deixar-se enredar pela agonia da culpa, por ter deixado de alimentar somente bons pensamentos é, surpresa, uma forma de apegar-se à derrota. Não percebemos, mas essa conduta, essa rejeição, esta condenação gera em nós uma forma de apego àquilo que estamos tratando de nos livrar; precisa um pouco de sensibilidade e reflexão para compreender isso que está sendo dito aqui agora.

Porque quando se rejeita algo, no fundo e pelo lado inverso, estamos gerando um apego; muita reflexão em cima disso, meus amigos, e assim, então, o nosso trabalho se tornará muito mais suave – porque simplesmente temos que aprender a observar, a ter atenção plena sem julgar, sem condenar – como ensinava o Mestre Samael.

Tomar consciência, em resumo, não é apegar-se, nem culpar-se, mas simplesmente fazer consciência, e aí, fazer consciência, aplica-se tantos às chamadas qualidades negativas quanto às qualidades positivas ou sensações negativas e sensações positivas. Há que se fazer consciência das sensações; há que se fazer consciência dos próprios pensamentos: de onde eles vêm? Por que surgiram? O que significam? E assim, então, com atenção plena e permanente auto-observação, vamos formando consciência do funcionamento da nossa mente, bem como dos objetos mentais.

Por isso que este trabalho de limpar a mente, este trabalho de buscar a iluminação, é um trabalho de muitos anos – e as pessoas hoje querem iluminação instantânea; quando não conseguem desenvolver em si, levados pela impaciência, buscam fugas, escapatórias, quem sabe valendo-se de bengalas, como determinadas substâncias que hoje são conhecidas como “plantas de poder”.

Ora, meus amigos, essas plantas de poder com o que se tenta disfarçar a geração do fenômeno da falsa consciência, quando se ingere o chá dessas chamadas plantas de poder, simplesmente revela nossa incapacidade de, por meios de nossa própria consciência, despertarmos ou alcançarmos a iluminação, e aí, então, lançamos mão de bengalas, só que estas bengalas têm uma agravante: escravizam-nos, nos tornam dependentes de doses cada vez maiores ou cada vez mais repetitivas. Este é o problema; nem falaremos de outras particularidades que ao fim de tudo nos levam ao abismo.

Portanto, quem quer a iluminação, quem quer limpar sua mente, é preciso fazer o que o Buddha fez: passar a vida inteira sentado em padmasana orando, meditando, estudando os pensamentos que apareciam, as tentações que apareciam na sua mente interior e um dia qualquer simplesmente deu se conta que já era um iluminado.

Se o Buddha realmente apoiasse o uso de bengalas [ou fizesse uso de chás ou plantas de poder, e certamente no seu tempo existiam plantas poderosas que poderiam acordar instantaneamente suas dezenas ou centenas discípulos]. Mas não consta em nenhuma tradição, linhagem, ou escola buddhista que o Senhor Buddha tenha utilizado em algum momento da sua vida qualquer bengala, fórmula, agente enteógeno ou alucinógeno para alcançar o seu despertar e o despertar de seus próprios discípulos. Isso merece nossa reflexão antes que nos tornemos vítimas disso que se tem popularizado extremamente aqui em nosso país.

Muitos, quem sabe, já caíram vítimas dessas beberagens e acham que é algo inocente que não os afeta; é preciso rever conceitos, meus amigos; é preciso realmente ter atenção plena nos objetos mentais dentro dos quais estão nossas próprias crenças, idéias; há que se investigar tudo isso, comprovar tudo isso, e falamos aqui porque sabemos e conhecemos do fenômeno da falsa consciência.

Um terceiro ponto muito importante dentro deste tema que estamos desenvolvendo hoje nesta última conferência é a atenção plena ao dhamma ou à doutrina.

A palavra dhamma [ou dharma]pode ser compreendida de diversas formas. Um dos sentidos de dhamma é a verdadeira natureza das coisas, a realidade, a lei espiritual e moral. O dhamma também denota cada um dos elementos físicos e mentais nossos que na totalidade fazem ou perfazem o mundo fenomenológico. A palavra dhamma também é conhecida, em outras linhas de buddhismo, como dharma, mas talvez o sentido mais conhecido ou pelo menos que normalmente é entendida essa palavra dhamma ou dharma segundo outras escolas, significa ensinamento e mais especificamente o conjunto de ensinamentos deixados pelo Senhor Buddha.

Temos que também colocar atenção plena no dhamma gnóstico, da mesma forma como faziam os bhikkhus antigamente que eram orientados a aplicar atenção plena ao dhamma buddhista. O buddhismo, na sua totalidade, pode ser resumido em quatro nobres verdades, inclusive isso já foi tema de uma conferência em 2006.

Essas quatro nobres verdades são: 

1- A existência do sofrimento [não tem como refutar isso]. 

2- A causa ou a origem do sofrimento. 

3- A extinção do sofrimento ou como extinguir o sofrimento. 

4– O óctuplo caminho de Buddha que é o caminho que conduz à extinção do sofrimento.

Como dissemos, as quatro nobres verdades, bem como o óctuplo caminho de Buddha, já foram temas de aulas aqui mesmo, neste canal, no ano passado; recomendamos que visitem nosso arquivo de áudio em nosso site (www.gnose.org.br) e baixem essas conferências para alargarem a idéia ou o entendimento do que vêm ser as quatro nobres verdades e o óctuplo caminho de Buddha.

O segundo ponto importante da doutrina do Senhor Buddha são os chamados cinco agregados. O que são esses cinco agregados?

1. A forma, a forma material;

2. As sensações;

3. As percepções;

4. Os pensamentos, isso que chamamos de consciência, pelo menos no ambiente acadêmico se confunde muito a mente como sendo consciência ou o ego até mesmo sendo a consciência humana e não é;

5. Os obstáculos que nos impedem de sair do sansara.

Quais são esses cinco obstáculos? O Buddhismo fala em seis obstáculos, o Cristianismo fala em sete obstáculos.

O Buddhismo menciona todos os defeitos capitais, exceto a luxúria porque talvez a luxúria esteja inserida nos demais defeitos porque luxúria, como tivemos oportunidade de explicar recentemente numa aula anterior, é tudo aquilo que excede o natural.

E por fim, o último aspecto que conforma a síntese buddhista, são os chamados fatores da iluminação.

Um dos fatores da iluminação é, exatamente, a atenção plena que é o motivo das nossas três conferências. Essa atenção plena vem ser a mesma concentração.

O segundo fator de iluminação é o estudo, a investigação, a prática do dhamma.

O terceiro é a compreensão da interdependência que existe entre mente e corpo. A isso se acrescenta a energia quem vem ser a vida, a própria consciência, ou a luz que está diluída e é presente ou onipresente, poderíamos dizer akasha. E o êxtase que nada mais é do que ser tomado plenamente desta mesma energia, essa mesma consciência.

E claro que como fator importante para alcançar a iluminação é a tranqüilidade ou a serenidade mental que se traduz nos níveis mais profundos como paz.

Isso, esses quatro aspectos aqui mencionados, as quatro nobres verdades, os cinco agregados, os seis obstáculos, mais os fatores da iluminação, isso forma as quatro colunas fundamentais do Buddhismo, assim como a Gnose tem os quatro pilares na Filosofia, Arte, Ciência e Religião, o Buddhismo tem nesses quatro pilares toda sua estrutura.

Já para concluir essa pequena apresentação de hoje temos a ressaltar o seguinte aspecto: se alguém alcança a verdadeira visão interior, as idéias tal como são formuladas não se diferenciam da sua percepção – o que significa que em última análise o dhamma, na acepção de objetos mentais, vem ser como que a própria verdade ou aquilo que se diz aqui no Ocidente. Jesus dizia: “conheça a verdade e a verdade te libertará”. Esse conheça a verdade talvez o verbo compreender a verdade se torne um pouco mais preciso dentro do contexto que estamos empregando aqui.

Portanto, quando alguém alcança a verdadeira visão interior, perceberá que as idéias, os conceitos, tal qual são expressos aqui em nosso mundo, e que está contido no dhamma ou no dharma sagrado do Buddhismo, da Gnose, configura-se como sendo a expressão ou descrição da própria verdade.

Compreender a verdade, no sentido mais amplo, é ser a própria verdade, ou é encarnar a verdade. Isto é importante e por isso repetimos: compreender a verdade no sentido mais amplo é ser a própria verdade porque aquele que compreende, encarna; encarnando, passa a ser.

É claro que isso não significa que estamos aqui falando de decorar ou memorizar determinadas frases, fórmulas; não, isso nos leva exatamente para o lado oposto; estamos falando aqui em compreender, e a forma de compreender algo, é somente e unicamente através da meditação perceptiva. Esta meditação leva ao fundo profundo de nós mesmos, porque esta meditação perceptiva, profunda, tem exatamente esta finalidade, que é a de nos unificar com a verdade.

Claro que isso não é uma tarefa fácil. Talvez muitas pessoas tenham mais aptidão ou mais capacidade que outras para praticar, fazer ou realizar isso. Alguns têm uma intuição um pouco mais desenvolvida neste momento, o que para eles facilita; porém ninguém é discriminado, desprezado nesta busca, nesta disciplina.

Em resumo, e já pra encerrar, o Satipatthana Sutta, que trata da atenção plena, estabelece o meio, a metodologia para se conquistar a iluminação. Por isso que a auto-observação, dentro da Gnose, é o primeiro grande passo.

Até aqui então nossas palavras desta noite; fiquem à vontade para os questionamentos.

Perguntas

P:Como identificar a falsa consciência?
R: Primeiro como informação racional, conceitual, intelectual: tudo que é do ego é falsa consciência; tudo que é personalidade transmite também falsa consciência. Mas quando aqui mencionamos “fenômenos da falsa consciência” é tudo aquilo que você passa a perceber quando induzido por agentes enteógenos. Muitos chamam
isso de experiência mística, mas não é bem assim. Também às práticas mediúnicas se diz erroneamente expansão de consciência; mas isso chamaríamos também de falsa consciência. A verdadeira consciência, dentro da Gnose, quando se fala em consciência verdadeira, quando se fala em consciência positiva ou objetiva, é
uma ação de nossa alma. A alma não raciocina, sabe; a alma ou consciência – como nós mesmos denominamos em Gnose – simplesmente sabe, sem o uso, a participação do raciocínio; não sei se isso é suficiente para responder a sua pergunta.

P: A falsa consciência seriam as fantasias?
R: Sim, também a fantasia é uma falsa consciência, e alimentamos os processos fantasiosos que são falsa consciência ou consciência negativa.

P: O efeito de uma planta de poder seria maléfico ao nosso organismo? 
R: Este é um dos argumentos mais usados pelos adeptos do chá, de que não é maléfico ao nosso organismo, e de fato, se você fizer exames químicos, biológicos, não encontrará traço da presença desse agente em nosso corpo; porém, é maléfico à alma. Qualquer estudante elementarmente informado de Gnose ou em Gnose, ou nas ciências transcendentais, como o Buddhismo, de qualquer outra antiga corrente, sabe que o grande problema são os malefícios para o espírito, para a alma, para o Ser. Então, hoje, temos uma excelente explicação para justificar seu uso, já que não deixa traço nenhum em nosso organismo; com isso nos sentimos liberados para fazer uso, esquecendo que o ser humano é um ente dotado de sete realidades paralelas aqui e agora. O que não prejudica no corpo, prejudica em outros elementos, outros aspectos e dimensões da própria natureza.

P: Como fica uma alma que neste plano tridimensional esteja realizando o trabalho interno, porém ainda não realizou um trabalho de preparação, de atenção para a morte?
R: Bem, meu amigo, é preciso, então, tratar de acelerar essa preparação, mas se você trabalhar intensamente sobre si, eliminando egos, cumprindo com aquilo que exaustivamente abordamos em todas as aulas praticamente, todas as reuniões desse ano 2007, no tempo certo de seu desencarne, será assistido, especialmente se você, durante essas práticas de agora, rogar, pedir por assistência, rogar por compaixão, negociar junto ao tribunal da lei. O que não podemos fazer é isso que alguém colocou na tela aí acima, atribuído a Buddha: “desperte, sente-se com determinação e treine a si mesmo para alcançar a paz. Não permita que o rei da morte, vendo que você é negligente, o engane e domine”.

P: Quando existe ação do ego na auto-observação, pois o ego observa…!
R: Isso é novo para mim, meu amigo! Isso de fato é totalmente novo, cem por cento novo para mim! Sempre percebi que quando alguém dirige sua atenção… A atenção é sua própria consciência, e não o ego; então talvez esteja faltando um entendimento do básico. Um ego julga outro ego; isso é possível, mas observação?
A atenção é como o foco de uma lanterna: aonde você direcionar esse foco ali está tua consciência. Não se esqueça de si mesmo e conduza, direcione o foco para aquelas regiões, para aquelas zonas que você precisa conhecer e explorar dentro de você mesmo. Que o ego tenta nos impedir de focar a atenção, disso não tenha dúvida, porque o ego é o grande sabotador. Então, em outras ocasiões, mencionamos que, para manter o foco direcionado na mesma direção, no mesmo objeto, ponto, é claro que temos que usar o poder volitivo, o poder da vontade.

P: Eu poderia dizer que durante o trabalho interno meus egos estariam sempre a um passo a frente de minhas ações?
R: Bem, você pode dizer isso, mas será que isso traduz a realidade? Por que que você acha ou infere que seus egos estão sempre a um passo a sua frente? A questão limita-se a não fazer a vontade do ego; para isso existe o poder da vontade, o chamado poder volitivo.

Dominar a mente, estou falando em “dominar” não em reprimir, se dá através da vontade; lembre-se sempre que a vontade é a própria consciência, a alma.

Aquele que aplica vontade naquilo que faz, está ali contando com a força, com o poder a sua consciência, da sua alma; ele deve tomar cuidado apenas para não se identificar com as formas pensamentos ou as tentações como se diz que surgem, mas isso é natural.

Buddha, debaixo da figueira, também era acossado por tentações. Santo Agostinho, o grande doutor da igreja, descreve também que durante o seu processo, quando ele tratava de meditar na crucificação, ele via como que mulheres nuas pregadas na cruz, e isso era terrível; isso o atormentava terrivelmente, já que havia sido um devasso durante a vida inteira; era o que mais pegava nele; no entanto, ele aplicou a vontade, disciplinou-se, e com o tempo, foi compreendendo, e à medida que se compreende, vai se superando essas tentações, sugestões, formas pensamentos, essas coisas que aparecem diante de nós mesmo durante as orações, meditação.

Buddha foi acometido por muitas tentações debaixo da figueira; sabemos da história de Mara e suas filhas que dançavam diante de Buddha debaixo da figueira.

Portanto, não há um só santo, Mestre ou Deus no cosmo que durante seu processo não tenha passado por essas tentações da carne, vamos dizer assim… como aqui se diz no Ocidente.

Temos que ter constância, disciplina, metodologia, estratégia, e é claro, que temos o apoio da Loja Branca. Os Buddhas trabalham, auxiliam nosso trabalho, auxiliam o trabalho de toda pessoa sincera, devotada, que realmente está trabalhando sobre si; esses têm a assistência bendita dos Buddhas.

 

Autor: Karl Bunn

Para um maior aprofundamento, recomendamos: Os Suttas Gnósticos Buddhistas


O texto acima é cópia integral, (modificada a pontuação e feitas algumas alterações para dar o formato de texto), de uma conferência ditada por Karl Bunn, presidente da Igreja Gnóstica do Brasil – www.gnose.org.br – realizada ao vivo dia 24.07.2007, por intermédio do programa Paltalk, via Internet. Equipe: Transcrição de texto: Mariana Cunha. Transcrição revisada e ampliada pelo autor.

Autor: Karl Bunn

 

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