ABRAGNOSE - Academia Brasileira de Gnose

Atenção Plena & Auto-Observação II

Como sabemos, a essência da meditação do buddhismo gnóstico consiste no desenvolvimento da plena atenção ou da percepção real e objetiva de tudo e todas as coisas.

atenção plena se desenvolve mediante um programa de treinamento específico; não é algo arbitrário ou feito ao acaso, mas sim, baseado num dos mais conhecidos textos do cânone Theravada, que é o Buddhismo Gnóstico . Portanto, estamos nos referindo ao discurso [sutta] dos quatro fundamentos da atenção plena , mencionado na reunião anterior: o Satipatthana Sutta .

A prática da meditação e da atenção plena podem ser comparadas, como mencionamos no encontro anterior, só para rememorar alguma coisa, com o ato de ferver a água numa chaleira. Se queremos aquecer a água da chaleira no fogão, temos que acender a chama e mantê-la acesa por um determinado tempo para que a água se aqueça e depois ferva.

No caso da prática da atenção plena, acender o fogo do fogão e mantê-lo aceso, equivale a estar atentos a nós mesmos, ou seja, plenamente atentos, e, cada vez que nos distraímos, equivale a desligar a chama do fogão.

Se o nosso objetivo é ferver a água, é claro que não podemos desligar o fogo a toda hora, porque a água não vai ferver. Se desligarmos o fogo mais tempo que o mantivermos aceso, a água não aquecerá nem ferverá, literalmente, nunca. Ferver a água equivale a alcançar a iluminação. Se não formos capazes de manter a atenção plena pelo tempo necessário, não só durante o dia, mas durante nossa vida, é claro que a chaleira com água não ferverá; ou seja: não alcançaremos o estado de iluminação.

A título de esclarecimento, lembramos que no Buddhismo Theravada existem dois tipos fundamentais de meditação: um deles visa ao desenvolvimento da tranqüilidade através de estados de absorções meditativas, que recebe o nome de Jhana; e existe um outro tipo de meditação, conhecido como Vipassana , e este visa a obter ou a alcançar a visão interna da verdadeira natureza das coisas.

Essas duas formas de meditação não são excludentes entre si, massim, complementares. Ainda que o tipo Vipassana seja considerado o mais elevado, a meditação da atenção plena, ou a meditação da introspecção, Jhana, resume-se numa frase que mencionamos no encontro anterior: “seja atento”, isto é: vigie a tua mente ou observe a si mesmo o tempo todo. No exemplo dado, acima, equivale a manter a chama do fogo permanentemente acesa para que a água da chaleira ferva.

Colocado isso, entendemos, concluímos, que o Satipatthana Sutta é essencialmente um paradigma para alcançar a visão interna da verdadeira natureza das coisas, usando, para isso, percepção total. Esse sistema oferece um programa, como dissemos. Este programa é natural e lógico; qualquer pessoa pode seguir esse programa com grandes resultados concretos. Com isso queremos tirar ou eliminar a idéia falsa, ou o mito, de que existe algo mágico, por assim dizer, na prática da atenção plena. Não, não existe! É técnica pura; pura técnica de concentração, de vigilância permanente, para não deixarmos a mente se desgarrar do aqui e agora.

Como tema de meditação podemos lançar mão de vários objetos, como mencionamos. O objeto de uma meditação é sempreo tema ou o motivo ou o foco . Como tema de meditação podemos usar a respiração, observar o corpo físico, observar as sensações e a própria consciência; podemos usar também os objetos mentais, ditos objetos mentais, que nossos próprios pensamentos.

Traduzindo, isso significa que nós podemos meditar usando os próprios pensamentos que surgem em nossa mente; não há razão, motivo ou explicação para não meditarmos; e também não é algo absurdo conseguir a concentração; muitos alegam que não conseguem meditar porque se distraem. Utilizem, então, nesse caso, os próprios pensamentos que surgem, como objeto de meditação.

Na seqüência, isso ficará mais claro… Em realidade, o Satipatthana Sutta é muito simples. Este sutta ilustra uma das principais convicções sobre o ideal do buddhismo gnóstico, qual seja: a de que os sentidos, incluindo a mente, devem ser transformados para que possamos perceber a verdade. 

O que vem a ser esta verdade? É a vida tal qual ela é, não como nossos sentidos dizem que é ou nos informam que é.

É preciso ir além das impressões sensoriais para percebermos, então, a verdade. Este é o propósito deste sutta. O Satipatthana Sutta começa pelo pressuposto da condição ilusória do ser humano, ou seja, toma como ponto de partida que o ser humano não conhece a realidade da vida, apenas [conhece] as impressões que da vida recolhemos pelos sentidos.

Isso nos remete à visão, à percepção, clara e evidente, de que no estado habitual, somos levados a ficar alheios acerca da natureza das coisas, principalmente da natureza da própria existência; ou seja, ficar alheio é a mesma coisa que ficar distraído ou identificado com as ilusões que são as impressões recolhidas da vida pelos nossos cinco sentidos mais a mente.

Assim sendo, levados por uma multidão de desejos egocêntricos, como ira, avareza, ódio, luxúria, gula, vaidade, ambição etc., os sentidos humanos constroem um mundo que é artificial e irreal. É um mundo onde o ego, a auto-satisfação, são de grande, enorme importância, e quando somos ameaçados por tudo aquilo que desafia o lugar, o status ou a posição pessoal, os sentidos perpetuam ou ampliam a ilusão de um mundo no qual os egos vivem no meio de coisas, num ambiente; e são esses egos que transmitem ou dão à impressão de felicidade e de bem estar, e assim caímos nessa ilusão de felicidade e bem estar egóicos.

Mas isso não é real! E, por força dessa ilusão, nós, seres humanos, somos levados e conduzidos pela ganância, ambição, ódios religiosos, raciais, discriminações e até mesmo partimos para a destruição de outros seres humanos. Nações entram em guerra contra outras nações a fim de conquistar uma posição ou defender uma idéia ilusória, um ideal baseado na ilusão, como, por exemplo, a ilusão de paz, que é sempre o motivo para iniciar uma guerra.

De quê paz estamos falando? De quê paz falam as nações para se lançarem à guerra? A sua paz? baseada nos seus interesses de mercado? interesses egoístas? na supremacia? na imposição de valores sobre outros povos, culturas, nações?

É disso que estamos falando, porque é assim que na vida prática e concreta isso ocorre. Mas a raiz disso tudo está na ilusão. Não temos mais acapacidade de perceber a realidade da vida porque hoje somos dominados pelas ilusões dos sentidos. Por isso, meus amigos, que o objetivo do Satipatthana Sutta consiste em sugerir, apontar ou indicar um meio, um caminho, que permita a compreensão da verdadeira natureza das coisas…

Essa não é uma tarefa muito simples; é uma tarefa trabalhosa. Então, meditar não significa, não é um devaneio mental como, por exemplo, contemplar um pôr de sol. Muitas pessoas se põem a contemplar o sol ao fim do dia e dizem que estão meditando; não é bem assim. Muitas vezes essa contemplação leva ou arrebata o contemplador a devaneios mentais, e ele se sente bem com isso; aí é mais uma ilusão da mente.

A meditação consciente, pelo contrário: é uma disciplina de confrontação com os processos da vida tal como realmente são. Em outras palavras: uma meditação consciente desnuda as impressões que chegam à nossa mente pelos cinco sentidos. Para isso precisamos ter uma postura, uma atitude crítica ou autocrítica, de atenção plena – e só a atenção plena, a auto-observação permanente nos proporciona isso, porque, se estamos fascinados, identificados, dormindo, com as projeções e fantasias de nossa mente, é claro que não temos mais atenção nenhuma; a nossa desatenção é total.

Portanto, a meditação consciente não depende de nenhum estímulo externo; não depende de drogas, sejam elas alucinógenas ou enteógenas, como aqui, em outra ocasião, já alertamos, ao falarmos sobre os fenômenos da falsa consciência; muitos não levaram e ainda não levam a sério; vão perder o retorno [e muito mais] por causa disso.

O satipatthana Sutta minimiza ou elimina as distorções sensoriais que contradizem a verdade sobre a natureza das coisas. O objetivo é proporcionar uma compreensão objetiva do ego e também do mundo e da vida, através de um método analítico e dentro de um ambiente controlado.

O que significa isso? Significa proporcionar compreensão a partir de uma percepção ou auto-percepção ou da identificação de um objeto. Uma vez que se percebe algo, se faz análise, a crítica, e essa análise crítica, leva-nos à compreensão; e o que significa ambiente controlado? Quem exercita a atenção plena tem o ambiente controlado.

Para aquele que persevera nessa disciplina técnica, é grande a recompensa que vai colher, ainda que ninguém medita para ganhar alguma coisa. Porque se alguém faz meditação para ganhar alguma coisa, está perdendo seu tempo. A meditação não objetiva ganhar algo, nem receber algo, não!

Devemos meditar simplesmente para poder ver, perceber e captar ou compreender as coisas realmente como são; portanto, uma vez que se tenha essa visão, ser ou poder ser aquilo que realmente somos em realidade, e não aquilo que pensamos que somos.

Nós não nos damos conta de que somos um ego reencarnante; não nos damos conta que somos uma mente que pensa, que somos um Ser aprisionado num corpo de barro. O corpo oferece impressões suficientes para nos fazer acreditar que somos o corpo. Mas, em realidade, não é isso; nós somos aquilo que está dentro do corpo, somos a consciência que está dentro do corpo, somos a consciência que percebe o próprio pensamento e próprio processo de pensar.

Isso precisa ser vivenciado, captado, e não tem como se fazer isso ou explicar isso através da dialética. Pela dialética até podemos transmitir estas verdades conceituais, porém se tornarão verdades reais à medida que cada um for vivenciando isso por si só. Se não houver vivência, se não houver disciplina prática e sistemática da meditação e da atenção plena, não vai haver comprovação nem experimentação da verdade e da realidade da vida.

Dentro disso, uma das meditações mais usadas pelo buddhismo gnóstico é, justamente, a meditação da atenção plena sobre o corpo. Na reunião anterior abordamos a atenção plena sobre o corpo caminhando. Hoje vamos abordar um outro aspecto da atenção plena sobre o corpo. Portanto, apropriadamente, devemos iniciar com a conscientização da respiração. Trata-se de um exercício específico, destinado a conseguir não só a consciência da respiração, mas também a percepção do corpo e de todos os seus processos.

O Satipatthana Sutta ensina a procurar um lugar tranqüilo, sentar-se com as pernas cruzadas, manter-se perfeitamente ereto e utilizar a respiração como objeto da meditação; depois que dominar a consciência da respiração pode-se partir para outras modalidades, como meditar andando ou tratar de meditar em atividade. Portanto, nessa condição de atento, o monge inspira e atento ele expira, e quando se dá conta e pensa “respiro lentamente”, compreende que está respirando lentamente; ou quando se dá conta “respiro depressa”, compreende que está respirando depressa.

A consciência da respiração, através do simples exercício de prestar atenção às inalações e às exalações prolongadas ou curtas, produzem um duplo resultado: 1)a percepção da natureza de todo corpo; 2) a tranqüilização das atividades orgânicas. 

Vamos analisar, por um momento, as conseqüências advindas se cada um dos nossos atos fosse executado com uma atenção consciente de cada movimento, de cada sentimento, de cada pensamento. Tal conscientização não é uma atitude de investigação ou conceituação racional, mas é a simples e natural percepção de tudo que ocorre interna e externamente; uma consciência que observa sem apegos todos os acontecimentos mentais e físicos.

Como bem diz o Satipatthana Sutta: “ter consciência do mecanismo da respiração é um exercício em si e por si mesmo, mas também é a atenção sobre a respiração destinada a orientar a meditação para a visão interna, para conduzir a meditação para a visão interna”.

Sob esse aspecto é encarada como o primeiro passo de um programa regular e sistemático de treinamento e desenvolvimento. Assim, a contemplação do corpo, das sensações, da mente ou dos objetos mentais, é realizada como parte da percepção da respiração.

Uma pessoa que se esforça para alcançar a visão interna precisa constatar, com absoluta clareza, todos os seus movimentos e atos, desde abaixar-se e esticar as pernas até vestir as roupas, passando pelo que bebeu, comeu, mastigou, engoliu. Em suma, nada do que faz deve passar despercebido ou não-observado. Isso é atenção plena, isso é auto-observação.

Os atos, que para o homem comum são motivados ou conduzidos subconscientemente, passam a fazer parte da vida consciente do meditador ou do bhikkhu, do estudante de Gnose, e todas as atividades físicas são compreendidas nesse sentido, de estarem sujeitas à plena percepção pura, ou seja, nada passa despercebido.

Isso não quer dizer que a mente deva empenhar-se indefinidamente nas razões e motivos desses atos todos, desses movimentos. Não, não tem que fazer isso; pelo contrário, o esforço, aqui, tem um propósito, que é eliminar a sujeição aos hábitos, ou a mecanicidade dos hábitos, dos pensamentos que vêm irrefletidamente, mecanicamente em nossa mente.

O Satipatthana Sutta adverte ou avisa a quem medita que deve refletir sobre as partes do corpo, da sola dos pés ao alto da cabeça, em termos de: cabelos, unhas, dentes, pele, carne, nervos, ossos, medula, rins, coração, fígado, membranas, baço, pulmões, estômago, intestinos, etc. E também avisa para refletir ou dar-se conta sobre: excremento, bile, catarro, pus, sangue, suor, gordura, lágrimas, saliva, muco do nariz, urina, etc.

Esta relação, aqui mencionada, talvez possa até chocar alguns; pode chocar, mas, como é natural, deve ser visto como parte natural do corpo humano. O objetivo é exatamente esse: não pintar um quadro atraente do corpo, mas justamente reforçar a noção e a idéia de que o corpo não passa de um conjunto de partes bastante repulsivas até.

Quando o meditador, o Bhikkhu, o estudante de Gnose, o interessado em desenvolver a atenção plena, se dá conta da realidade do corpo, quando passa a perceber que no corpo não existe nada que vale a pena a se apegar, a desejar, ele deixa de ser conduzido para lá e para cá pela luxúria, por exemplo, porque são os sentidos que passam a nós a idéia de “corpo atraente”, e este mesmo conceito, “mulher atraente”, “homem atraente”, a partir dos quais se desenvolve todo um processo luxurioso, que pode levar à fornicação, ao adultério. [Não sei se estamos conseguindo passar a idéia… Mas é assim mesmo que ocorre…]

Se passarmos a ver o corpo tal qual ele é, dotado de tudo isso que mencionamos aqui, carne, nervo, ossos, medula, rins, coração, órgãos internos, e também excrementos, catarro, pus, muco, urina, essas transformações de impressões gradativamente vai destruindo a ilusão luxuriosa. É disso que estamos falando, meus amigos.

Portanto, a conscientização de um estudante, de um bhikkhu, de um monge, fundamenta-se exclusivamente na idéia de que o corpo apenas existe. O corpo existe e não se pode negar, mas, as idéias e conceitos de “corpo jovem”, “corpo atraente”, “apetitoso”, “gostoso” despertam os desejos e das sensações de tocar tais corpos.

Quanto antes superarmos essa ilusão sensorial mais rapidamente podemos triunfar sobre nossa luxúria e sobre nossos processos luxuriosos; afinal, não há razão para apegarmo-nos ao corpo, viver em função do corpo e também dos sentidos que nos passam as ilusões, as imagens, as impressões sobre o corpo – nada mais que isso.

O buddhismo gnóstico ensina claramente ao meditador, ao bhikkhu, considerar o corpo como “um todo composto unicamente dos quatro elementos materiais primitivos que é terra, água, fogo e ar”, porque todo o corpo e os órgãos internos, as glândulas, tudo é feito desses elementos, em última análise. O que passa disso, é ilusão…

Quando alguém percebe objetivamente a realidade, se dá conta que o corpo humano é um conjunto, um órgão, um instrumento para a consciência se expressar, agir e interagir aqui neste mundo, onde estamos neste momento. 

O processo analítico, no qual o praticante-estudante está envolto, enquanto examina o corpo, é também um exercício de controle da mente, porque não deixa a mente desgarrar-se nas fantasias. As definições, nesse caso, são limitadas, não no sentido lógico ou lingüístico, mas como um exercício destinado a focar a mente.

Poderia afirmar que o Satipatthana sutta estabelece um contexto rigoroso para a mente em lugar de permitir as habituais reações mentais fruto de uma indisciplina da mecanicidade dos pensamentos. No entanto, ao reduzir o indivíduo aos elementos básicos, elementais, fundamentais ou partes constituintes, enfraquecemos – e com o tempo eliminamos – o ego ou os egos que, justamente, se alimentam, que se formaram, que sobrevivem dessas ilusões sensoriais.

A redução do apego ao corpo é acentuada pelo que se menciona como as oito contemplações do cemitério . Isso é ensinado no Buddhismo e também em nosso Curso de Meditação , que está disponível no site [www.gnose.org.br]. Ali se fala alguma coisa sobre isso; uma das meditações ali recomendadas é exatamente meditar sobre a morte e os processos de decomposição do corpo.

O Satipatthana sutta orienta e ensina a meditar sobre as oito contemplações do cemitério, que nada mais é do que ver o corpo humano atual, ainda que nesse momento jovem, atraente, bonito, cheio de vida, viçoso, ao cabo de alguns anos se transformará num cadáver.

As oito contemplações do cemitério são quadros que descrevem o corpo nas diversas fases de apodrecimento e dissolução que segue à morte. É claro que isso é uma idéia ou um pensamento bem desagradável. Mas acreditamos que a franqueza e a objetividade desta passagem dispensa maiores comentários; todos sabemos o que é um corpo em decomposição…

Uma das formas de meditar, utilizando o corpo como objeto de meditação, é exatamente esse: atenção plena no corpo humano desde que ele nasce, cresce, se desenvolve, passa pela fase da adolescência, a idade adulta, depois a senilidade e, por fim, a morte e a dissolução do corpo após a morte.

Esta contemplação, a meditação nesses quadros objetiva libertar aquele que medita do apego às coisas do mundo; libertar e criar um estado de independência – e a palavra independência é bastante adequada, porque no nível mais profundo, a prática da meditação do buddhismo gnóstico tem como objetivo trazer à realidade um novo estado de Ser, caracterizado pela liberdade total, ou seja: se nós nos descondicionarmos de tudo isso que temos e tomamos hoje como sendo verdade e realidade, se fizermos uma ampla e profunda transformação mediante a atenção plena, a auto-observação direta sobre nós mesmos, ao fim alcançaremos um novo estado de consciência, caracterizado pela liberdade total – e na liberdade total, com o incondicionamento da mente, podemos, então, perceber a realidade tal qual ela é.

Meditar sobre os processo de dissolução do corpo, ao qual estamos tão apegados, ocasiona realmente algumas repulsas, e o objetivo é exatamente esse: gerar repulsões, porque as repulsões são sensações, percepções, conclusões, sentimentos, opostos ao que o ego nos diz, ao que os sentidos nos dizem.

Entretanto, podemos inclusive, quem estudou a história de Buddha, sabe que Siddhartha Gautama iniciou sua peregrinação espiritual a partir da visão de um cadáver; foi ali que ele concluiu ou o levou a pensar: “mas, afinal, o fim da vida é esse? A finalidade da existência é essa? Virar um cadáver? Então, por que se apegar a algo que vai ser dissolvido, que irá perecer?”

À medida que aprendemos a pôr consciência em tudo e em todas as coisas, à medida que nos desapegamos de tudo e de todos, inclusive de nós mesmos, de nossos sentimentos, de nossos pensamentos, de nossa idéias ou “verdades”, à medida que vamos percebendo objetivamente que a vida real e concreta não é a que nossos sentidos indicam ou transmitem, vamos despertando nossa consciência.

Até aqui nossas palavras desta noite; ficamos agora à disposição daqueles que quiserem ampliar o sentido, a visão, a percepção daquilo que tratamos de apresentar e expor aqui; fiquem à vontade para fazerem os questionamentos que acharem necessários. Peço apenas que não fujamos do tema para, justamente, não contrariar o nosso objetivo maior aqui, que é o da atenção plena…

Perguntas

P: Quando se está concentrando num chakra, fazendo uma vocalização, é normal sentir uma sensação de dor ou desconforto neste lugar? 
R: Se você se concentra numa determinada parte do corpo humano, para ali converge maior quantidade, volume de energia, inclusive circulação sangüínea. Então quando tratamos de concentrar num chakra, vocalizar o mantra respectivo desse chakra, é claro que ali se concentra energia vital, astral, da mente e para ali também se concentra, no respectivo órgão da contra parte física, maior quantidade de sangue. Então vêm os sintomas decorrentes do exercício; não há porque temer, se assustar; a única coisa que aconselhamos é não queiram fazer oito horas diárias de exercícios como este de começo, de cara, porque vai gerar problemas.Sempre temos recomendado aqui uma hora, duas horas de meditação diária mais a prática da atenção plena durante o dia, claro que tomando como base filosófica de tudo a conduta reta, a prática e a expressão das virtudes como ensina o karma yoga. Se vivermos de acordo com esses princípios e fazermos nossas práticas tudo sairá bem… [no início, quem nunca fez nada, deve ser prudente: uma hora, no máximo, para começar, durante sessenta dias; depois, gradativamente, vai ampliando o tempo, até chegar a duas horas, três horas. Oxalá todos pudessem meditar três horas por dia, fazer práticas três horas por dia dessas práticas passivas; daria um grande salto espiritual…

P: É sabido que se obtém um melhor resultado na meditação justamente naquele período no início da sonolência; tenho observado que é justamente nesse momento que mais sinto sono, e embora me esforce ao contrário, sinto que o mesmo fica cada vez mais forte, não me dando condições de prosseguir. O que posso fazer para vencer este inimigo? 
R: Meu caro amigo, quem diz que essa sonolência, ou esse estado de sono, é seu inimigo? O Mestre Samael sempre foi categórico em afirmar, ao longo da sua vida, que meditação sem sono, sem estado de sonolência, danifica o cérebro. Meu amigo, aprenda apenas a cavalgar o tigre, aprenda apenas a surfar na onda que está aí à sua frente; não se conflite tanto assim; pratique apenas a atenção plena durante o estado de sonolência. O Mestre Samael, em determinadas práticas, diz que, inclusive ele ensina em algumas outras práticas, que é obrigatório você entrar no estado de sono, e até mesmo sono profundo, porque aí, em estado de sono profundo, você irá falar com seu Íntimo. Claro que no começo, se você dormir, aí é outra coisa; mas estamos falando de sono ou sonolência profunda, e esse estado de sono ou sonolência profunda, equivale à meditação profunda ou estado de meditação profunda – que não deixa de ser uma certa sonolência, ou se parecer com sonolência. Isso não é esse sono que caímos na cama e dormimos feito pedra. Acho que falta apenas exercitar o domínio que te falta nesse ponto; não encare isso como um obstáculo, mas sim, como algo aliado a você; apenas aprenda a equilibrar-se na onda: estado de sono profundo sem perder a consciência, compreende?

P: Você ensinou uma meditação para o corpo físico; existe uma meditação para as sensações? 
R: Quando falávamos da respiração e também do corpo físico comentamos sobre as sensações; estão envolvidas. As sensações todas são dadas pelo corpo físico. Então, na prática, no exercício da atenção plena, ou da auto-observação, não há como não perceber o corpo, não perceber a respiração, e não há como não perceber as sensações. Esse é um tema que ainda vamos aprofundar, como havíamos anunciado anteriormente. Isso será feito na próxima reunião… Em resumo, as sensações se resumem em três classes: sensação agradável, desagradável e neutra. Todas elas, especialmente as agradáveis e desagradáveis, alimentam e geram egos, caso não trabalharmos nas transformações das impressões. Mas o nosso propósito hoje aqui foi o de ensinar a meditar sentado ou deitado, que é a meditação passiva tomando como objeto de meditação o corpo e tudo que a ele está relacionado. Na próxima semana falaremos da atenção plena na transição da vida para a morte, que é muito importante, visto que 2012 se aproxima, e antes disso muitos fenômenos já se precipitarão…

 

Autor: Karl Bunn

Para um maior aprofundamento, recomendamos: Atenção Plena & Auto-Observação III


O texto acima é cópia integral, (modificada a pontuação e feitas algumas alterações para dar o formato de texto), de uma conferência ditada por Karl Bunn, presidente da Igreja Gnóstica do Brasil – www.gnose.org.br – realizada ao vivo dia 17.07.2007, por intermédio do programa Paltalk, via Internet. Equipe: Transcrição de texto: Mariana Cunha. Revisado pelo próprio autor.

 

 

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