ABRAGNOSE - Academia Brasileira de Gnose

O Segredo (The Secret)

O tema a ser tratado hoje é O Segredo. Existe circulando por aí um filme chamado “O Segredo”, que tem atraído a atenção de muitas pessoas. Muitos consideram esse filme uma chave maravilhosa para melhorar ou mudar sua vida. Na realidade, fomos investigar ou pesquisar sobre esse filme e, de nossa parte, não encontramos nada que pudesse traduzir ou configurar-se como um segredo para nós. Mas, no mundo de hoje, qualquer coisa que possa aumentar as possibilidades de ganhar dinheiro, atrair mulheres ou namorados, boa sorte ou fortuna, sem dúvida acaba tornando-se muito importante e muito valorizado. Não é o caso aqui na Gnose, o segredo para nós é outro.

Podemos começar dizendo uma frase axiomática, “nosso nível de ser é o segredo”, não é o que pensamos, nem o que a mente diz, não é o que desejamos, mas sim o nosso nível de ser, este é o segredo. Em termos de Gnose, devemos focar e ficar atentos ao nível de ser, temos de fazer uma avaliação criteriosa e profunda agora mesmo. Qual é o nosso nível de ser?

Em outras ocasiões, abordamos com alguns exemplos, perguntando, deixando no ar a pergunta para que cada qual responda. Qual é o nível de ser do bêbado? Onde o bêbado sente-se feliz, à vontade? Qual é o paraíso do bêbado ou do viciado? Onde o viciado sente-se bem? Qual é o paraíso do devasso, do luxurioso? E assim sucessivamente.

O nível de ser de um cientista, seguramente, é diferente do nível de ser de um religioso, de um pastor, de um padre… E qual é o nível de ser de um gnóstico? Se nos concentrarmos apenas dentro da Gnose encontraremos muitos níveis de ser e é por isso, também, que encontramos dentro do chamado Movimento Gnóstico muitas linhas e escolas. Cada uma dessas escolas representa um nível de ser e cada um sente-se bem na escola com que se harmoniza, que corresponde a seu grau, a seu entendimento, a sua compreensão, a sua inteligência ou a sua formação geral.

Se quisermos levar adiante uma Gnose pura, certamente espantaremos a todos. Por enquanto, o nível de ser da humanidade é baixíssimo e gravita em torno de dinheiro, prazer, conta bancária, consumismo, então aí temos um choque, um conflito.

Seja como for, o tema que propomos desenvolver essa noite sobre essa expressão O Segredo gravita em torno do nível de ser. Devemos examinar em que nível de Ser estamos. O nosso nível de Ser praticamente revela o nosso traço psicológico, porque pode ser que o nosso nível de ser seja a ira, o orgulho, a vaidade ou a ambição. Temos de tomar consciência disso, porque atrairemos a nós, segundo as vibrações correspondentes de nosso nível de ser. É o nosso nível de ser que determina as cores e o brilho de nossa aura, revela o peso de nosso coração e mostra que nossos rins (a balança do karma) estão em perfeito equilíbrio [ou desiquilíbrio]. Tudo gravita em torno do nosso nível de ser.

Portanto, meus amigos e interessados no caminho esotérico e espiritual, o segredo para nós é o nível de ser. Qual é o degrau que ocupamos especificamente na escalada do ser? Não falo do nível de ter. Por aí confundem o ser com o ter; em muitos paises do mundo você é aquilo que você tem; se você não tem nada, você não é nada. Mas, para a Gnose, o ser é mais importante que o ter.

O ser é tudo e o ter é nada, são coisas emprestadas pela vida para usarmos enquanto aqui estivermos fazendo nosso trabalho, aprendendo, cumprindo nossa função ou missão. O fundamento do trabalho gnóstico repousa em nosso nível de ser, pois é ele que atrairá para nós isso chamado de sorte ou azar, só que sorte ou azar não existem, é uma lei de imantação universal, do magnetismo, atrair aquilo que nós vibramos. Lobo anda com lobo, ovelha com ovelha, leão com leão, se nosso nível de ser é baixíssimo como podemos atrair seres, pessoas, oportunidades de um nível mais elevado? Não há como; pobre casa com pobre, rico com rico. Porque pobre só conhece pobre e rico só conhece e convive com rico; de vez em quando surge uma exceção e o resultado prático costuma ser quase sempre um desastre.

Meditemos sobre tudo isso, porque são exemplos práticos de vida, observados e retirados do cenário da existência; isso não está nos livros; a gente vê, olhando com olhos de ver, ao nosso redor no convívio social. Investiguemos através da técnica da meditação, da introspecção, da auto-análise, qual é nosso nível de ser. Como podemos reconhecer nosso nível de ser? Há muitas maneiras de reconhecer-se e investigar isso: se somos pessoas que falamos palavrão a toda hora, certamente nosso nível de ser é baixo, dos mais básicos e primitivos. Se nossa vida caracteriza-se por um modo de viver instintivo, brutal, é claro que nosso nível de ser é baixíssimo, instintivo, primata, animal ou bestial; nisso não há ser; falta consciência, porque somos puro instinto.

Se nossa mente ocupa-se apenas com fantasias, devaneios, ganhar na loteria ou chegar a alcançar riquezas, prestemos atenção a este tipo de fantasia, sonho e projeção, esse sonho acordado. Por que queremos e o que faríamos com a fortuna em nossas mãos? Uma grande parte das pessoas torraria toda essa fortuna em prazeres, em gratificações sensoriais, não teria um milímetro de acréscimo em seu nível de ser, isso configura-se como um mau uso da fortuna.

Muitas pessoas hoje nascem com dharma ou karma positivo e não sabem viver adequadamente. Fazem desse dharma uma fonte de infortúnio em vez de alegria e felicidade porque seu nível de ser é baixo, não conseguem harmonizar a circunstância interna com o ambiente externo, falta aprender a relacionar-se com o ambiente, com o mundo, assim, em infinitos desdobramentos. Creio que, por meio destes exemplos, seja suficiente para chamar a atenção de todos nesse sentido, que o segredo está no nível de ser de cada um.

Os solteiros escrevem muito para nós perguntando como proceder pra encontrar alguém que “me compreenda”, “me complemente”, “me siga pelo caminho”. É evidente que, se não mudarmos o nível de ser, não atrairemos um complemento adequado, porque pela Lei de Imantação Universal atrairemos para nós aquilo que vibramos. Se vibrarmos um nível de ser baixíssimo, é claro que atrairemos outro(a) troglodita. Devemos sair do estado primata para o estado humano, não podemos sonhar com anjos e Deuses, príncipes maravilhosos ou princesas de reinos desconhecidos como nossos companheiros ou companheiras de jornada, não há harmonia nisso, pois o nosso nível de ser é muito baixo.

Primeiramente, temos de construir ou elevar nosso nível de ser, assim podemos esperar que surja alguém do mesmo nível, pois esse é o principio da imantação ou magnetismo universal. A sabedoria popular diz o seguinte: “dinheiro chama dinheiro”, às vezes vale a pena meditar sobre isso. É claro que a sabedoria popular refere-se ao dinheiro material, mas se mudarmos isso para a moeda cósmica, perceberemos claramente que capital cósmico permite-nos negociar com o Tribunal da Lei e sairmo-nos bem nos negócios com a Justiça Divina e se não tivermos dinheiro cósmico, o que atrairemos para nós, já que não temos com o que pagar nossas dividas? O grande Mestre da Gnose já nos alertou sobre isso, quem não tem com o que pagar, paga com dor, sofrimento, amargura.

Se quisermos ser bem recebidos, tratados, honrados, celebrados, reconhecidos, tanto neste mundo como no outro precisamos ter dinheiro. Aqui manda a conta bancária, lá mandam os tesouros que a traça não corrói. São os tesouros do espírito, que nada mais são do que um elevado nível de ser, este é o segredo, investir na edificação de nível de ser superior a esse que temos hoje.

Como fazer isso? Aí começamos com menos teoria e mais prática, viver a Gnose nos fatos, não nas abstrações intelectuais, não nas tertúlias com os colegas da Gnose, é muito bonito, muito agradável para a personalidade reunirmo-nos nos seminários, em locais adequados para isso e conversarmos sobre nossos anelos, trocarmos idéias, nisso não há mal algum. Entretanto, se nos limitarmos somente a isso, a vida passa e um dia descobriremos que os dias passaram-se e só falamos acerca do caminho ou do crescimento espiritual e pouco realizamos. A Gnose é feita no dia-a-dia, nos fatos ela concretiza-se.

Perguntaram a um Mestre do TAO: “o que é o TAO?”. E ele respondeu: “a vida comum”; “mas então o que deve se fazer para viver de acordo com ela?”. E o Mestre respondeu: “se você tratar de viver de acordo com ela, fugirá de ti”. Não se trata aqui de cantar essa mesma canção, mas deixar que ela toque sozinha, deixemos que a música flua e nós devemos adequar nossos passos e movimentos de acordo com as notas e os compassos da musica que flui, este é o segredo de viver. Agora, temos uma atitude equivocada, queremos criticar o maestro, o repertório.

A dualidade mental faz com que fujamos muitas vezes da música, ataquemos ou rejeitemos, fazemos tudo, menos compreender porque naquele momento é aquela musica que está sendo executada. O que devemos fazer é voltar para nós mesmos e perguntar: qual é a relação desta música com minha vida? E tratar, então, de dançá-la segundo seu ritmo e de acordo com as melodias que fluem, porque não podemos mudar a vida, mudar o universo, a vida é, a realidade é, nós estamos aqui. Então, somos nós que temos de acompanhar a música, pois a música já estava aqui antes, o repertório é esse. Quando aqui chegamos, tudo isso já existia, podemos mudar isso, mas primeiro devemos tornarmo-nos donos dos processos da construção da música existencial. Antes disso, não adianta criticar, precisamos compreender.

Mencionamos em uma ocasião anterior que a compreensão é o vazio existente entre os dois extremos, do sim e do não ou da dualidade mental. Esse é o nosso problema, somos jogados para os dois extremos como um pêndulo de um relógio e o que devemos fazer é repousar no centro, compreender, a compreensão é a luz, é o vazio.

O segredo está em viver os fatos e não fazer dos fatos diários um problema. É fato que temos de comer, vestir, cuidar de nossa saúde, higiene, é fato que também temos de cuidar um pouco da nossa apresentação, não por vaidade, mas por respeito aos nossos semelhantes, porque senão estaríamos agredindo nossos semelhantes.

Não há como escapulir dos fatos, mas o segredo está em não fazer dos fatos um problema, e como resolvemos isso? Comemos quando precisamos comer, se não tiver o que comer, não coma, viva o fato e a realidade, mas nós reagimos diante do fato ou da evidência de, eventualmente, durante um dia ou alguns dias, não termos o que comer. Isso lembra-me muitos exemplos concretos da vida do Mestre Samael, fatos esses mencionados em oportunidades anteriores, mas que iremos repetir aqui e agora para efeito de gravação.

O Mestre Samael tinha tanta fé no seu Pai interior que vivia despreocupado dessas coisas, era um homem prático, vivia o TAO, não fugia do TAO, não fugia da vida comum, se tinha o que comer ele comia e se não tinha o que comer, ele não comia e não fazia disso um problema. Quantas vezes discípulos chegavam a casa dele e vendo, percebendo, tentando adivinhar ou como que insinuar, por exemplo, um cafezinho ou algo assim. Ele não tinha o que oferecer e alguém com mais sensibilidade captava então a real situação e colaborava, então ele comia.

Por dharma, ele foi casado com um ser magnífico que o acompanhava e apoiava na boa e na má hora. Apoiado estava quando tinha o que comer e quando não tinha o que comer também e não desistia, seja morando bem ou mal. Também era uma mulher prática, um Buda vivente que havia aprendido, com as reencarnações anteriores, a viver o presente, não projetar fantasias do futuro, não sonhar: “ah… Que bom se eu tivesse agora um milhão de reais na minha conta, o que poderia fazer com isso? Compraria uma casa, um carro, iria viajar, me divertir, iria ao melhor restaurante, pedir isso e aquilo”, e isso é sonho, fantasia. Estes sãos problemas, as projeções da mente, sonhar acordado, fugir do TAO, da vida como ela é.

Aprendamos a deixar que a música toque por si mesma e movamos nossos passos segundo os acordes e os ritmos, porque fazer disso problema tem sido um drama e um desastre nas fileiras gnósticas, pois justamente falta ao estudante a compreensão do mais básico e elementar de tudo. Ele ignora o segredo de bem viver, viver com inteligência, retamente, viver a vida como ela é, este é o segredo da felicidade. Não confundamos aqui felicidade com prazer, porque há diferença, muitos confundem prazer com felicidade. A felicidade é do coração, o prazer é dos cincos sentidos.

Se alguém, por um processo qualquer, fosse desligado por um momento dos seus cincos sentidos, ele se coisificava instantaneamente e aquilo tudo que para ele era tão importante, como os prazeres sensoriais, sumiria, nem saberia de si mesmo mais, não teria mais lembranças do que é prazer, aniquilaria-se completamente. Um ateísta materialista poderia dizer que essa criatura simplesmente virou uma pedra, um pedaço de árvore cortada ou um tronco podre inerte sem nenhum meio de sensibilidade. Para a percepção ateísta materialista está correto isso, porém aquele que sabe que a única realidade é a consciência cósmica, que tudo em realidade é consciência e que todas as formas são um invólucro de expressão dessa mesma Consciência Universal, grande oceano da vida, ou como queiram denominar. Se a palavra Deus está desgastada, troquem, usem como Consciência Universal, ou grande oceano de vida que se expressa em todas as formas de vida, desde uma gigante galáxia até um micróbio desprezível numa poça de água suja, tudo é consciência e forma, a não forma é forma.

Então, o que é o TAO? O TAO é o vazio e a plenitude, a forma e a não forma. Por que fazer disso tudo um problema, motivo para conflitos, por que nos desgastarmos nesses extremos das engrenagens mecânicas da mente, como se fôssemos um relógio que depende de um pêndulo?

Quando, em Gnose, se diz que devemos tratar de despertar a consciência, na realidade a Gnose diz para deixar de sonhar. E o que é deixar de sonhar? Um gigantesco passo será dado se mediante uma disciplina no sentido de conter a mente como se fosse um cavalo selvagem, aplicação de vontade nossa, deixarmos de fazer projeções, fantasiar aqui e agora enquanto estamos nesse mal chamado estado de consciência de vigília. Se conseguimos conter essa mente rebelde, amedrontada, ali começa o nosso despertar, porque a mente não sabe nada da vida e nem pode saber, pois como age e encontra-se hoje, perdeu seu verdadeiro papel, local, lugar.

A mente é receptora, não projetora. Isso é uma invenção que nós, por desconhecimento e ignorância, acabamos por mal educar nossa mente e, em decorrência, amargamos as conseqüências de tudo isso. Se nossa vida é triste, infeliz, se estamos em conflito fora é porque temos conflito dentro e não conseguimos parar essa guerra interior e essa luta de opostos, de extremos, de viver os fatos presentes e a projeção desses mesmos fatos segundo o entendimento viciado e torto de nossa mente. Condicionamos a mente a agir dessa maneira, então nossa tarefa agora é fazer o contrário, doma-la, tirar seus maus hábitos, retirar os vícios. Criar hábitos positivos, um deles é, em vez de raciocinar, passar a contemplar, este é o segredo.

Os conflitos e a guerra interior revelam uma grande falta de respeito para conosco mesmos. Se tivéssemos compreensão acerca da nossa realidade, da verdadeira natureza, certamente devotaríamos muito mais respeito a nós mesmos. Se não nos respeitamos, isso projeta-se para fora e também faltaremos com respeito aos demais, se não sabemos conviver conosco mesmos, internamente falando, isso se projeta para a convivência exterior.

Temos de aprender a respeitar a nós mesmos e o segredo disso é conhecermo-nos, investigarmo-nos, levar a atenção para dentro de nós, saber o que ocorre e acontece, perceber, tomar ciência e consciência dos fenômenos psicológicos acontecidos em nosso interior. Para isso, possuímos uma faculdade chamada atenção. Hoje, nossa atenção está dispersa, espalhada, ela vaga pelo mundo, precisamos trazê-la e concentrá-la em nós, orientá-la e voltá-la para dentro de nós mesmos de maneira concentrada. Isso por si só faz com que nossa mente páre de projetar, divagar, sonhar, fantasiar.

Quando o Mestre Samael diz que o homem sonha, identifica-se e sonha, se algo nos chama atenção a seguir, pois estamos inconscientes de nós mesmos ou com a atenção dispersa, passamos a projetar em cima daquilo que nos chamou a atenção, isso é sonhar. Despertar é trazer a atenção para nós, concentrar essa atenção numa direção e uma direção única, o farol que a princípio temos que apontar, olhar ou voltar é apenas o nosso Ser, esse é o segredo. A desgraça nossa é que olhamos tudo menos o nosso Ser, não temos capacidade de concentração, desenvolvemos em nós uma enorme capacidade de distração, agora toca-nos disciplinar o foco da atenção rumo ao nosso Ser, a realidade, a essa consciência interior, essa luz interior e não às projeções que nossa mente faz dessa luz ou de qualquer outra realidade, seja ela interna ou externa. Isso são as abstrações, não podemos viver a Gnose aqui no concreto se estamos vivendo em abstrações, isso não é a vida real, não é o TAO.

Quando passamos a investir na edificação de um novo nível de Ser, mais elevado, muitas coisas vão morrendo ou passam a tornar-se secundárias e terciárias e, conseqüentemente, morrem, pois vamos estudando, analisando e compreendendo naturalmente no tempo devido e isso torna-se, então, dispensável, porque indispensável é o Ser, a nossa realidade, a vida em si que palpita dentro de nós. Disso que temos de nos dar conta e não focar nas abstrações, projeções, fantasias que a mente faz a partir desses mesmos fenômenos. É difícil traduzir isso em simples palavras, gostaria que realmente houvesse o poder mágico de fazer com que cada um enxergasse isso diretamente, mas não é possível tal coisa, cada um terá que descobrir isso.

A nossa situação interior é tão calamitosa que, por uma mera questão de sobrevivência psicológica, acabamos desenvolvendo de forma imperceptível ao longo não só desta vida, mas como em todas as vidas anteriores também, isso que podemos denominar como um processo de mentir a si mesmo. E o que vem a ser esse mentir para si mesmo?

Se estivermos andando por uma rua e encontramos um amigo e ele nos cumprimenta, geralmente pergunta-nos “como vai? Como tem passado?”. E sempre respondemos que estamos bem, formalmente respondemos isso, mas, em realidade, ao dizer isso temos consciência que estamos bem, se é que estamos bem mesmo ou é apenas um formalismo social, um verniz social de convivência que criamos? Não quero dizer que neste aspecto formal do relacionamento está contida uma mentira, mas não deixa de estar presente ali o principio da mentira, porque a mentira realmente ganha dimensões terríveis quando passamos a acreditar que estamos cada vez melhor, que nosso nível de Ser está cada vez mais elevado e perdemos a capacidade e as referências para podermos avaliar-nos adequadamente.

Como podemos dar conta desses processos de mentira para conosco mesmo? Hoje em dia é bem difícil, é parte do trabalho de Avatar, Profeta ou mensageiro trazer sempre um novo esquadro, uma nova régua e um novo compasso. É sempre uma nova doutrina que vai servir de espelho para nós. Se, neste preciso momento, o próprio Cristo materializasse-se em nossa vida, sala, casa e falasse: “meu amigo, você está indo cada vez pior, está mal do jeito que está indo hoje…”? Estou bastante seguro que rejeitaríamos de imediato e de forma mecânica tal revelação, porque vivemos uma mentira, uma fantasia, acreditamos que estamos indo cada vez melhor, quando estamos com um pé no abismo, se somos ricos em defeitos é evidente que somos pobres em virtudes, não há como ter as duas riquezas e aqueles que as têm certamente vivem uma situação anômala na qual são conhecidos como abortos da natureza.

Para acabar com o processo de mentira, devemos voltar a atenção para dentro de nós mesmos, sempre olhar para dentro de nós mesmos, não projetar, não fantasiar. É preciso estudar uma nova ciência, uma nova doutrina, seja ela qual for. Em diferentes épocas da humanidade, diferentes doutrinas foram trazidas ao mundo, mas todas delas têm em comum terem sido rejeitadas maciçamente e apenas aceitas por alguns poucos.

Romper com o processo de mentir é uma das coisas mais difíceis, porque a mentira é um recurso que o amor-próprio, que a autoconsideração utiliza para continuar existindo, um processo que o orgulho lança mão para continuar existindo, enfim, a mentira que todos os egos e defeitos utilizam para continuar existindo, fazendo das suas dentro de nós.

Se queremos, realmente, mudar de nível de ser, esse é o segredo, acabar com a farsa, com a fantasia e projeção, acabar com o processo da mentira, construir uma capacidade de verdade, vermo-nos, avaliarmo-nos, percebemo-nos como somos, não como imaginamos ser.

Todos nós carregamos uma auto-imagem, sempre imaginamos que somos lindos e maravilhosos, bonitos, perfeitos, caridosos, amorosos. Porém, quando alguém ou alguma circunstância qualquer da vida, desnuda-nos, seja diante de nós mesmos, seja diante de outro, dizemos: “que vergonha! Que vergonha!”. O que está escondido atrás disso? Qual é o segredo desses processos todos?

A auto-imagem é algo terrível, se estamos muito preocupados com a nossa questão de imagem pessoal, ou de projetar uma imagem de bonzinho ou positiva, mas toda ela baseada em artifícios. Certamente, nem uma nem duas vezes seremos desnudados pela realidade dos fatos e isso se torna um obstáculo enorme para a mudança de nível de ser ou para ascender a níveis elevados de ser.

Observemos a natureza, qualquer pássaro, animal ou árvore, nenhum deles estão preocupados em projetar algo a mais do que eles são. Uma árvore é uma árvore, não quer ser mais do que uma árvore, não usa artifícios, enfeites, ela é o que é, assim é a vida toda, sem artifícios, um pássaro, um animal, ele é o que é, é só observamos o comportamento que sempre os veremos agir livremente, livre de artifícios. E não nos esqueçamos de qualquer artifício é isso que chamamos ego, artificial, agregado, não é a realidade, a realidade é o Ser, como diz o Mestre Samael; concentrarmo-nos em nosso Ser, não esquecermos de nós mesmos ou esquecer de nosso Ser isso é fundamental, este é o segredo.

Se esquecermos de nosso Ser, daquilo que somos, passamos a viver artificialmente, porque estaremos querendo projetar para os outros aquilo que não somos, se observamos uma ninhada de gatos no seu desenvolvimento, notamos que eles são o que são, não têm necessidade, preocupação ou insegurança de ocultar o que quer que seja e nem de projetar, são o que são. Esta é uma grande lição que precisamos aprender, despojarmo-nos dos artifícios, ser exatamente aquilo que somos. E podemos descobrir isso em nós com muita auto-observação, auto-exploração, se não desenvolvermos o hábito positivo e saudável de explorarmos, analisarmos, observamo-nos é evidente que não nos auto-descobriremos jamais.

Tudo isso, essa auto-descoberta e, conseqüentemente, a compreensão de nós mesmos ou uma auto-revelação, dá-se como desenrolar natural de um trabalho aplicado neste sentido dentro de nós, sem almejar um resultado, mas apenas pela ação desinteressada, sem artifícios, este é o segredo. Em poucas palavras, tudo resume-se a fazer algo, “botar a mão na massa”, realizar, trabalhar, ter uma atitude pró-ativa em relação a nós mesmos, darmo-nos conta de que não somos uma coisa, darmo-nos conta do artificialismo da mente, ou seja, temos cinco sentidos ainda, tínhamos mais, hoje restaram cinco sentidos, esses cinco sentidos jogam de forma ininterrupta para a nossa mente impressões, essas impressões movem-nos, levam-nos para uma ação ou para uma reação, depende da nossa atitude, podemos agir ou reagir, seguir reagindo.

O processo de despertar a consciência implica necessariamente numa ascensão de nível de Ser e vai além da mente, da reação, projeção, artificialismo. Para isso, a técnica da meditação introspectiva, auto-exploração diária, gradativamente retirará as sucessivas camadas artificiais que acumulamos em nós e também nos dará a remoção dos distintos véus que encobrem a luz verdadeira, por isso hoje temos escassa a luz. Porque criamos ou colocamos muitos véus, temos de remover esses véus da subjetividade. O que vem a ser esses véus? É o que falamos há pouco, se em vez de ver, contemplar a realidade, projetamos idéias acerca dessa realidade isso é um véu que distorce essa mesma realidade.

Se pensarmos de uma forma não-livre, segundo condicionamentos de uma educação universalmente ou socialmente aceita, isso é um véu que impede a luz brilhar, se seguimos imitando velhos procedimentos, comportamentos, atitude ou reações, tudo isso é subjetivismo, só a auto-exploração vê diretamente todo esse conjunto de artifícios ou coisas que nós mesmos inventamos, alimentamos, conservarmos, tudo isso no fundo, em resumo, nada mais é do que uma ferramenta, um recurso que o nosso egoísmo lança mão para continuar existindo e o egoísmo é formado por amor-próprio, autoconsideração, auto-importância, a mentira é feita para proteger isso.

Tudo isso, no fundo, apenas forma a maquinaria que defende, protege, conseqüentemente, fortalece nosso próprio egoísmo. O segredo de romper com tudo isso é começar a, aqui e agora mesmo, atrelar o foco do atenção e projetá-lo para dentro de nós, para auto-explorar, não perder o foco da atenção, não esquecermos de mós mesmos, não deixarmos de meditar, não deixarmos de explorarmo-nos mais e mais profundamente a cada dia, a cada hora. Aos poucos, iremos conhecendo-nos. Porque iremos descobrindo-nos, fazendo consciência gradativa de tudo aquilo que está dentro de nós, conseqüentemente, poderemos fazer um balanço, uma análise daquilo que está sobrando, que são os artifícios e daquilo que está faltando, atrofiado, oculto ou o que é preciso ser construído, que são nossas virtudes.


O texto acima é cópia integral, (modificada a pontuação e feitas algumas alterações para dar o formato de texto), de uma conferência ditada por Karl Bunn, presidente da Igreja Gnóstica do Brasil – www.gnose.org.br – realizada ao vivo dia 30/01/2007, por intermédio do programa Paltalk, via Internet. Equipe: Transcrição de texto: Mariana Cunha. Copydesk: Wagner Spolaor

 Autor: Karl Bunn

29 de outubro de 2013

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